Pedro Marinho – O dia em sozinho que sozinho tive que escoltar um homicida preso no Estado de São Paulo até Rondônia

   Certa feita me encontrava como diretor da Policia Metropolitana, quando no final da tarde fui chamado as […]


Pedro Marinho – O dia em sozinho que sozinho tive que escoltar um homicida preso no Estado de São Paulo até Rondônia

 

 Certa feita me encontrava como diretor da Policia Metropolitana, quando no final da tarde fui chamado as pressas ao Gabinete do Diretor Geral de Polícia e ali me disse o diretor Francisco Esmone Teixeira, que por ordens do então governador e do secretario de Segurança, tinha uma missão sigilosa para que eu realizasse no Estado de São Paulo, mais precisamente na capital. Na ocasião disse-me o mesmo, que eu teria que ainda naquela noite viajar sozinho para buscar um irmão de uma grande autoridade do Poder Executivo do Estado de Rondônia e que havia sido preso em São Paulo, mais precisamente na cidade de Campinas, em razão de um crime que o mesmo havia cometido na cidade de Ouro Preto em Rondônia.

 Naquela ocasião, Revelou Esmone disse que eu teria que viajar sozinho para a missão, em razão da discrição exigida e também por questões financeiras, pois não existia dinheiro sequer para pagar as diárias e até mesmo as passagens aéreas haviam sido adquiridas na cota de outro órgão do governo estadual. Revelou ainda o diretor, que o preso não poderia ser algemando para não chamar a atenção e não chocar os seus familiares, ocasião que disse  da minha estranheza em escoltar um preso e o fazendo sem utilizar a indispensável algema, principalmente num vôo aéreo.

Praticamente passei em casa apenas para arrumar a mala e seguir para o aeroporto para embarcar por volta das 24 horas para aquele Estado, tendo chegado lá ao amanhecer, depois de uma parada em Brasília.

Já na capital paulista num frio de rachar, procurei uma modesta hospedaria no centro da cidade, nas proximidades do chamado Palácio da Polícia e depois de um banho rápido e de guardar a minha pequena valise e fazer uma rápida refeição rumei para a repartição policial, sendo lá bem recebido pelos assessores, sendo levado então a presença de um delegado que era o chefe de gabinete do diretor geral, que tomou conhecimento do que eu fazia ali e imediatamente entrou em contato com o delegado da cidade de Campinas, determinando que o preso fosse recambiado a capital para embarque para Porto Velho.

Em razão do tempo que levaria pediu a um dos assessores que me levasse nas salas e apresentasse aos colegas que ali trabalhavam e em determinado trecho do passeio interno nos vários andares do citado prédio, de repente o delgado que me acompanhava talvez inadvertidamente  se virou para mim e disse: “Delegado, tem um delegado Ari, colega seu que encontra preso aqui num dos andares por ser membro de uma quadrilha de carros, gostaria de visitá-lo?” O que de bate – pronto respondi: ‘Não doutor eu não tenho colega ladrão. Se ele fosse meu colega, estaria trabalhando conosco em Rondônia e não preso aqui. Aliás, Doutor, ele foi posto no olho da rua em razão de denuncia e depoimento meu na nossa Corregedoria e a conversa entre mim e  cicerone daí por diante esfriou. 

 Já próximo ao meio dia, fui levado a presença do diretor Geral da Polícia Civil de São Paulo, num gabinete com grande aparato e uma legião de assessores, sendo muito bem recebido pelo mesmo que me perguntou sobre as coisas do Estado de Rondônia, num bate papo informal, quando finalmente cegou a equipe trazendo o preso algemado e adentrou no gabinete do Diretor que olhando para mim disse: ‘Doutor tai o seu homem, mas como o avião só sairá por volta das 15 horas, ele irá ficar trancafiado aqui e eu o convidaria para almoçarmos junto com alguns colegas e depois uma equipe os levará ao aeroporto. Diante do importante convite e temeroso de ter que dividir a conta  num dos caros restaurantes de São Paulo de pronto recusei o convite e na hora inventei que obrigatoriamente teria que almoçar com familiares residentes naquela capital, mas que ficaria para outra oportunidade e me dirigi para as proximidades do meu hotel onde almocei numa padaria.

Fui para o hotel e preocupado com a hora dormi alguns minutos e depois retornei ao Palácio da Polícia, onde fiz os contatos e o preso e escolta foram trazidos a minha presença e ali na presença de vários policias o diretor Geral mandou retirar a algema do preso e solicitou a minha algema, quando eu para surpresa e censura de todos  disse que não as tinha levado, seguindo ordens superiores. Quando então o Diretor demonstrando indignação disse: ‘Delegado o protocolo não é esse, vejo que está devidamente armado, mas levar um preso num avião sozinho e sem algemas é sempre muito perigoso, mas tudo bem a escolta vai deixá-lo dentro da aeronave e a partir daí é por sua conta e risco o que de fato foi feito, depois das minhas explicações e desculpas aquela autoridade e demais policiais presentes.

No aeroporto as duas viaturas da Polícia Civil  entraram na pista e fomos o primeiro a subir, quando já no interior da aeronave as algemas foram retiradas do preso e me posicionei junto com ele na ultima cadeira onde sentam apenas dois passageiros, normalmente membros da própria tripulação.

O voo saiu por volta das 15 horas com pouso em Goiânia-Go para espera de três horas e troca de aeronave para seguir para Rondônia. O pior momento foi exatamente no aeroporto de Goiânia, pois sem algemas, se o preso precisava ir ao toalete lá eu obrigatoriamente tinha que ir e ficar de olho nele. Se eu precisasse ir ao toalete, o preso obrigatoriamente tinha que me acompanhar. Realmente horas intermináveis e bem sofridas durante a nossa permanência ali.

O fato é que finalmente embarcamos e seguimos para Rondônia quando surgiu um novo drama na hora de se servir o jantar, que naquela época era servido comida de fogão e se comia com talheres. Quando então a tripulante um tanto amedrontada veio no meu ouvido e indagou se era para entregar talheres ao preso, tendo eu respondido a mesma que desse uma colher que eu me encarregaria de cortar a sua carne o que de fato fui obrigado a fazer.  

Ao chegar a Porto Velho, me esperava ali não uma equipe de policiais para me ajudar e sim diversos diretores de SSP e outras autoridades renovando todas as recomendações com relação ao preso e o seu contato com a imprensa para que não explorasse o caso, quando de pronto dei a missão por encerrada e falei que ao entregá-lo no Plantão de Polícia e encerraria ali a minha missão e jamais me prestaria a ser babá de ninguém e muito menos coibir o trabalho da imprensa, que outro ou outros se encarregassem disso, pois iria para minha casa.

Ao chegar à minha residência, estando acordado por cerca de 48 horas e por conta do desgaste físico e emocional, literalmente estafado praticamente desmaiei sobre a minha cama, tendo a minha esposa pela primeira e única vez, sido obrigada a retirar até os meus sapatos e meias. Tempos muito difíceis. 


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