Cracolândia: A pedra e o “lobo do homem” Jair Queiroz

Quem visitou São Paulo nos últimos tempos, nem precisou ser um bom observador para perceber que a maior capital do Brasil continua amargando a tragédia da cracolândia, fenômeno que afronta sucessivas administrações e resiste a várias investidas do poder público na tentativa de exterminá-la. Primeiro foi em 2012, enquanto o país ainda estava extasiado com a escolha para sediar a Copa do Mundo (2014) e precisava a adotar a estratégia de “varrer o lixo para debaixo do tapete”. Isso mesmo, como diz o ditado popular, “tudo para inglês ver”. Dentre as medidas estratégicas para uma boa apresentação da cidade, uma demandava especial atenção: desaparecer com os “zumbis” da cracolândia. A ordem era a internação compulsória, a cadeia, ou, de qualquer forma, a evacuação do espaço público. A tentativa de desmonte do “acampamento” envolveu o uso de balas de borracha, cassetetes, spray de pimenta, cães e grande aparato policial. O comandante da operação alardeava: É necessário infringir-lhes dor e sofrimento para que resolvam de tratar!

Dessa fala só podemos deduzir que o oficial acreditava que aqueles homens, mulheres, adolescentes e crianças estavam ali por diversão, como se estivessem reunidos para um banquete, onde as mais deletérias substâncias eram servidas aos convidados; como se a dor e o sofrimento já não fizessem parte da degeneração provocada pelo crack e da qual eles não podiam mais fugir. Essa é a razão de serem diagnosticados como portadores da Síndrome da Dependência Química, donde se deduz que dependem, psicologicamente e fisicamente dos efeitos da substância devido ao conjunto de sintomas psicofísicos que manifestam com a interrupção do uso. O dependente quer parar de usar a droga, mas não pode, ou não consegue, justamente por depender dela visceralmente, analogamente como depende do ar que respira. A intrusão química contínua no cérebro provoca tal desordem nos mecanismos dopaminérgicos que impossibilitam a volição, o controle racional, a análise de qualquer situação que não seja o uso da droga. Ela é necessária para restaurar a sensação de existir, pelo menos existir num corpo físico. Assim mais pedra, mais cobrança, mais desesperança, maior o abismo e a falta de crença… Não se crê em mais nada! Nem mesmo no poder da bala de borracha.

Bem, voltando à Sampa de 2018, depois de terem naufragado em mais duas tentativas de expurgar a cracolândia (2014/ 2017) e devolver as ruas e os prédios aos seus proprietários, percebemos que houve sim uma grande mudança: Agora todo o centro e adjacências estão incluídos no cenário dantesco que abriga a população “cracolandense”. Viadutos, marquises, calçadas, becos, portas de lojas, esquinas…enfim, qualquer lugar. Uma horda desgrenhada, sôfrega, de pele cinzenta e olhar vidrado vagueia a esmo, pedindo esmolas, roubando, atacando transeuntes, não raro matando e morrendo, mas resiste bravamente às medidas impostas pelo poder público e os condena a mais dura pena, que é a de “deixarem de se esconder atrás da cortina mágica de fumaça”.

Podem dizer os analistas de plantão, que “esses homens são uns derrotados”, mas eu continuarei insistindo que derrotada é uma sociedade que reduz parte de seus membros à condição de farrapos e depois a alveja numa caçada antropofágica. Essa tragédia humana não aconteceu da noite para o dia. Ela foi criada nos gabinetes taciturnos, por figuras canhestras que desconhecem o sofrer das ruas, mas que ditam as políticas que passam a esmo das necessidades fundamentais. Medidas que requerem pouco investimento inicial, primando pela prevenção, educação e investimentos a longo prazo em bem-estar social.

Ao contrário, a prática arraigada no setor público é a de esperar a instalação do caos, o adoecimento massivo, situação que favorece as negociatas feitas a toque de caixa para a liberação de verbas emergenciais. O poder público é mais voraz que a pedra e devora o próprio público a quem deveria proteger.

O crack é um mal necessário para o “bem dos maus”.

O autor é Psicólogo Clínico, Pós-graduado em Segurança Pública e acadêmico de Direito em Londrina.