Pedro Marinho conta mais uma história da Polícia Civil de Rondônia

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No ano de 1984, enfrentando um garimpo bem trabalhoso com milhares de homens, bem como o pesado trafico de drogas, me encontrava sozinho como delegado Regional de Guajará-Mirim, sem contar sequer com um adjunto ou mesmo com um escrivão, trabalhando apenas com uma agente administrativa, a nossa colega Judite, que nomeava ad hoc e posteriormente nomeado por mim como ajudante o policial Airton Procópio e também contando com uma excelente equipe de agentes policiais que me ajudaram muito nas tarefas de toda a regional e também a combater o trafico, tendo naquela ocasião dizimado a quadrilha do então maior traficante da Região Amazônica Nereu Machado de Lima, que residia naquela cidade.

Depois de muitos pedidos de pelo menos um delgado auxiliar, finalmente a direção Geral de Polícia, enviou para Guajará três novos delegados, sendo eu informado que os mesmos iriam permanecer ali aprendendo e posteriormente eu seria transferido para Porto Velho, sendo eles João do Vale Neto, Samuel dos Santos e um terceiro cujo nome devido o pouco tempo de convivência, infelizmente não guardei na memória, oriundo do Estado de São Paulo, que só guardei o apelido ‘Mingau’.

Ao se apresentarem a minha pessoa, considerando que a minha esposa e filhos se encontravam em João Pessoa, em decorrência de problemas de saúde do filho recém nascido Rodrigo e verificando que os mesmos estavam com pouco dinheiro, resolvi acomodá-los na minha casa até que eles conseguissem se estabelecer nas suas respectivas moradias.

A razão desse apelido de Mingau – depois vim, a saber – foi que durante o curso na Academia, todos os dias ele estudante, fazia uma papa bem rala, parecendo mesmo um mingau e dizia aos colegas que desde criancinha sua mãe preparava esse mingau para ele até o dia em que já adulto, foi para a academia em Rondônia e por isso ele não abria mão de degustar todas as manhas o seu mingau, o que gerou muitos gracejos e o apelido por parte dos colegas.

Soube posteriormente também, que durante o curso, ele contava sempre muita valentia e dizia que iria jogar duro como delegado de polícia seja contra os bandidos e também com relação à disciplina nas delegacias aonde viesse a atuar, pois ele não era homem de temer cara feia.

Na semana seguinte que chegaram os três novos delegados, o capitão Lucena, que comandava a Companhia da Polícia Militar e que se localizava ao lado da delegacia, enviou um convite dizendo que queria junto com os seus comandados recepcionar os novatos com uma feijoada por volta do meio-dia, o que foi prontamente aceito, pois seria bom para entrosá-los com os militares.

No dia supracitado, eu passava para lá r para cá e só via na repartição João do Vale e Samuel, quando então, em certo momento perguntei pelo delegado ausente, tendo João me respondido que os três haviam chegado cedo a delegacia e que ele misteriosamente sem nenhum satisfação havia desaparecido e como já se aproximava a hora do almoço chamei o policial João Pomba e solicitei ao mesmo que desse uma volta na cidade e fosse também até meu endereço, para localizar o delgado ausente.

Tempos depois João e sua equipe retornaram, tendo João informado que não tinham encontrado o delegado nem na casa e em nenhum lugar da cidade, informação que me deixou bem preocupado, pois como eram ainda eram muito sem experiência me sentia responsável pelos três.

Confesso que fui ao almoço na Companhia da PM, apenas com os dois colegas João do Vale e Samuel e a feijoada mesmo muito bem preparada, para mim não tinha sabor de nada em razão da grande preocupação com o sumiço do colega, pois temia que o mesmo inadvertidamente tivesse atravessado para a Bolívia e lá se apresentado como delegado e caído nas mãos de bandidos.

Logo depois do almoço resolvi pessoalmente procurar o colega, tendo primeiro dado uma volta pela cidade, mas sem nenhum sucesso, quando então, resolvi ir até a minha casa, pois quem sabe o mesmo poderia ter em seu interior passado mal e se encontrar por lá precisando de socorro.

Ao abrir a porta e adentrar na casa, fui recebido com um revolver na cara e então verifiquei que se tratava dele o colega desaparecido, com os olhos bem esbugalhados e que ao constatar de quem se tratava, baixou a arma e bem constrangido saiu apressadamente para o quarto, sendo seguido por mim, indagando ao mesmo, o que estava acontecendo com ele, quando então depois de várias vezes perguntas, ele disse apenas que não iria mais permanecer em Guajará, não explicando de jeito nenhum qual seria a razão dessa mudança brusca de comportamento e que já estava com a passagem comprada para viajar a noite daquele dia no ônibus das 19 horas e que iria permanecer em casa trancado até à hora da partida, mesmo sem alimento, já que fazíamos os quatro as nossas refeições na rua.

Na mesma conversa o assustado colega, ainda solicitou que eu o acompanhasse até a Rodoviária e dali escoltasse o ônibus até a Torre da Embratel, não admitindo que sequer os policiais da Sevic o acompanhassem. Tendo ele na ocasião indagado: ‘Doutor o senhor está armado?’ e diante da minha resposta afirmativa revelou que desejava que apenas eu o acompanhasse na sua despedida.

À noite depois de jantar com João do Vale e Samuel, comprei um sanduíche e um guaraná para ele e retornamos para casa, quando mais uma vez fui surpreendido com a postura do mesmo, que se recusou a comer ainda muito espantado estava com seu revolver numa cartucheira amarrada na perna como se fosse um Cowboy americano.

Conforme combinado o conduzi a rodoviária e ali o mesmo ainda fez uma solicitação que necessitaria de uma escolta na Rodoviária e outra mais tarde para levá-lo até o avião no aeroporto, tendo eu dito ao mesmo que iria providenciar o seu pedido, telefonando para a capital e atendendo o seu pedido, solitariamente acompanhei o ônibus até a saída da cidade.

Já na capital o mesmo pediu desligamento da Polícia Civil, porém informou que só entregaria a carteira funcional e o revolver ao chegar ao avião, sendo então escoltado até o interior da aeronave pelo Delegado Jovely Gonçalves e uma equipe de policiais e ali já no avião devolvido a arma e o documento.

O fato é que muito depois tomei conhecimento de que ele Mingau tinha chegado à cidade de Guajará-Mirim, muito cheio de exigências e falando de forma pouco educada com os policiais e com o publico, tendo inclusive sem que eu soubesse, implicado com os policiais com relação ao uso da viatura, recebendo dias depois, sem que se saiba até hoje a sua autoria, um estranho telefonema, dando um prazo de 24 horas para ele sumir de Guajará, sob pena de ser morto. Coitado do Mingau e da sua pseuda ‘valentia’.

 

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