Nitroglicerina pura – lobista que comprou MPs avalia fazer delação premiada

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MAURO MARCONDES MEDIOU COMPRA DE MPS NOS GOVERNOS LULA E DILMA. FOTO: RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA
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Preso desde outubro por integrar suposto esquema de compra de medidas provisórias nos governos Lula e Dilma, o lobista Mauro Marcondes Machado avalia fazer acordo de delação premiada com investigadores da Operação Zelotes. Prestes a completar 80 anos e com problemas cardíacos, ele discute a possibilidade com alguns de seus interlocutores como forma de deixar a Penitenciária da Papuda, em Brasília, o mais rápido possível e também de salvar a mulher, Cristina Mautoni, do regime fechado.
Também detida em outubro, Cristina inicialmente ficaria na cadeia, mas a Justiça aceitou converter sua prisão em domiciliar porque ela se recuperava de uma cirurgia. Na última quinta-feira, dia 7, peritos estiveram na casa dela para avaliar se tem condições de voltar a uma unidade prisional. A possibilidade de mudança de regime apavora o lobista e a família.

Mauro Marcondes completará 80 anos em 9 de abril e deve se valer de benefício que prevê, nessa idade, o cumprimento de pena em regime aberto. A mulher, contudo, tem 53 e não pode contar com essa perspectiva. A prisão de Cristina em regime fechado tornaria a situação do casal mais dramática porque os dois têm uma filha de 14 anos e temem não poder cuidar dela.

Também pesa a favor de uma delação a idade avançada de Mauro Marcondes e seus problemas de saúde. “É necessário avaliar, nessa situação, quanto vale um ano de sua vida na cadeia”, disse uma pessoa próxima do lobista. Na Papuda, ele divide cela com o também lobista Alexandre Paes dos Santos, o APS, preso sob a acusação de integrar o mesmo esquema de venda de medidas provisórias.

Não houve, por ora, tratativas sobre os termos de um eventual acordo. Se optar pela delação, Mauro Marcondes poderá contar detalhes dos pagamentos de R$ 2,5 milhões feitos ao empresário Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O lobista e o ex-presidente têm uma ligação que remonta à década de 1980, quando um era executivo da Volkswagen e o outro sindicalista no ABC. Uma pessoa próxima de Mauro Marcondes diz que os repasses seriam uma forma de o lobista buscar prestígio junto ao ex-presidente.

Luís Cláudio alega que os valores se referem a serviços de consultoria prestados por sua empresa, a LFT Marketing Esportivo, à Marcondes & Mautoni Empreendimentos, que pertence ao lobista. A Polícia Federal sustenta, contudo, que os trabalhos foram montados com material copiado da internet, especialmente o site Wikipedia.

Num depoimento à Polícia Federal, Mauro Marcondes afirmou ter constatado que o preço dos “serviços” de Luís Cláudio era “absurdo”. Mesmo assim, aceitou pagá-los.

Caças

Os investigadores da Zelotes também querem aprofundar a apuração sobre como o lobista atuou para viabilizar a compra, pelo governo federal, dos caças Grippen, da sueca Saab Aviation. A negociação, de valores bilionários, foi feita no governo Lula e fechada na gestão de Dilma Rousseff.

Em interrogatório na Papuda, a Polícia Federal questionou na quinta-feira a Mauro Marcondes se ele tratou do negócio com políticos e agentes públicos, incluindo o ex-presidente Lula. Ele se manteve em silêncio no depoimento, mas estaria disposto a contar mais a partir de agora.

O lobista e a mulher são suspeitos de contratar uma investigação clandestina para espionar o procurador José Alfredo de Paula Silva, que tocava inquérito sobre os caças. No caso das medidas provisórias, os dois foram denunciados em novembro por lavagem de dinheiro, organização criminosa e corrupção ativa.

A Justiça Federal em Brasília aceitou a denúncia e marcou para o fim deste mês depoimentos dos réus. Eles começaram a apresentar suas defesas recentemente e a arrolar testemunhas. A possibilidade de delação premiada será avaliada por Mauro Marcondes com seus advogados. Procurada pela reportagem, a defesa não se pronunciou.

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