Os Retratos Falados e a ameaça de morte – Por: Jair Queiroz

Certo dia, enquanto trabalhava no DENARC, fui convocado para compor uma equipe que se deslocaria a Ariquemes para […]


Os Retratos Falados e a ameaça de morte  – Por: Jair Queiroz

Certo dia, enquanto trabalhava no DENARC, fui convocado para compor uma equipe que se deslocaria a Ariquemes para investigar um crime que envolvia a participação de policiais. Na viatura estavam agentes de Guajará Mirim, liderados pelo grande João Lins Dutra, o João Pomba, ao lado do motorista e no banco de trás íamos apertados como sardinhas na lata, em quatro pessoas, sendo um deles o agente Indião, logo, que por óbvio, ocupava boa parte do espaço disponível.

A certa altura, num calor de torrar, paramos para tomar caldo de cana e logo seguimos viagem. Pelo menos dois colegas fumavam no interior da viatura. O calor, a fumaça dos cigarros e o caldo de cana não compuseram uma boa mistura e logo fiquei muito enjoado, torcendo para que a viagem terminasse. Ao chegarmos à 2ª DP em Ariquemes, onde eu faria os retratos falados, disponibilizaram uma sala onde aguardaria a testemunha que faria descrição dos suspeitos sobre os quais até então eu nada sabia. Durante a espera pedi permissão para me recostar e me recuperar da sensação de enjoo e assim, sentado numa poltrona, cochilei por uns 15 minutos, acordando já com a chegada da testemunha, acompanhado pelo Delegado Hazael e agentes. Confesso que eu não estava no meu melhor dia, mas cumpri a missão.

Fiz dois desenhos com base nas descrições fornecidas, permanecendo na sala apenas eu e a testemunha. Trabalho concluído apresentei o resultado à autoridade que reuniu a equipe e juntos fizeram comparações dos desenhos apresentados por mim e nas fotos que eles já tinham em mãos, concordando que eram realmente muito semelhantes. Pediram à testemunha que verificasse então as tais fotos, sendo que ela confirmou a semelhança, ou seja, os retratos falados apresentavam as mesmas características das imagens das fotos, as quais eu nem vi, pois nada acrescentariam ao meu trabalho que já estava feito.

Mais tarde, já refeito e disposto, enquanto aguardava para retornar, perguntei a um dos integrantes da equipe local sobre determinado colega que atuava naquela DP, meu amigo de longas datas e fui informado de ele estava na outra Delegacia. Exclamei surpreso: – Ah, então ele está autuando lá agora? E surpreendi-me com a resposta: – Não! Ele está preso lá! Só então eu soube que o meu amigo era suspeito de ser o principal articulador do crime investigado. Por já estar preso, óbvio que não constou das descrições que haviam sido feitas. Enfim, essa foi minha participação nesse caso, cujo desfecho na justiça culminou com condenação dos envolvidos.

Certa noite, no decurso de tempo enquanto as investigações seguiam, por volta das 22 horas, parei a moto em frente ao prédio do antigo Beron, da 7 de Setembro, para fazer um saque no caixa eletrônico do BB, estacionando ao lado de outra motocicleta. Só havia um caixa funcionando e estava ocupado. Fiquei aguardando e quando aquela pessoa se virou para sair, vi que se tratava de um colega policial. Cumprimentei-o normalmente sorrindo, mas ele me encarou com um olhar furioso, passou direto, parou na calçada, deu uns passos de volta, depois virou-se e saiu. Não entendi absolutamente nada e até achei que ele estivesse nervoso ou quem sabe havia bedido, ou que simplesmente nem me reconhecera. Não me liguei para o fato de ele ser um dos suspeitos naquele crime. Eu não sabia do grau de envolvimento e a situação dele naquele episódio.

Quando saí da agência, minutos depois, ele permanecia sentado sobre a sua moto ao lado da minha. Mais uma vez olhei para ele, meneei a cabeça a me despedir e fui embora.

Mais algum tempo, outro colega me contou que rolava uma conversa de que eu teria feito parte de uma trama com Delegado contra os agentes investigados, arguindo que a mando da autoridade eu teria elaborado os desenhos para que se parecessem com as fotografias. Fiquei surpreso com essa revelação, pois não fazia o menor sentido. O fato é que tinham uma suspeita e a descrição fornecida pela testemunha a reforçava, pois que os rostos tinham similaridades, mas eu não tinha o menor conhecimento dessa relação.

O colega que me relatou a conversa também me alertou a tomar cuidado, pois que um dos acusados, a essas alturas com sua situação já bem complicada com a justiça, estaria muito bravo com a suposta “armação” – que obviamente não houve – e que teria dito que onde me encontrasse me mataria. Lembrei-me então do meu encontro com ele na Agência e entendi a razão do olhar furioso, mas que felizmente não agiu como tinha prometido. Eu certamente teria sido vítima de “fogo amigo”, pois não imaginava o risco que se avizinhava e nem sequer portava arma naquele momento. Seria pego de surpresa, vítima de um assassinato idiota e à queima roupa.

Bem, mas estou vivo e contando mais essa história. O ex colega (ou ainda colega, não sei), creio, já cumpriu sua pena e desejo que esteja bem e que tenha refeito sua vida. Eu apenas cumpri uma missão técnica e não traí minha consciência em nenhum momento.

Jair Queiroz


1 Comentário

  1. Jeter Mamani disse:

    São os “ossos do ofício”. Não conheço o colega envolvido na condenação, mas o colega Jair Queiroz dificilmente participaria de qq trama para incriminá-lo. Considerando que no transcurso de várias décadas nunca se soube de algo que desabonasse a conduta do colega Jair, enquanto policial perito na elaboração de Retrato Falado, uma acusação desse nível deve ser ignorada. Ademais, o nome diz por si mesmo, trata-se da produção de uma imagem a partir da fala, descrição, narrativa feita por outrem. No caso de suposta trama, como foi aventado, há uma incongruência ou conflito de base: a figura da testemunha tinha que ser eliminada ou a fotografia do suspeito mostrada a ela para que a descrevesse conforme sua percepção. Porém, mesmo esta remota hipótese também inocenta o elaborador do retrato falado, pois no máximo teve seu trabalho prejudicado sem necessariamente ter participação na trama e, numa suposta “armação” dos agentes públicos, dita testemunha poderia ser usada de maneira mais efetiva, por persuasão, ao fazer o reconhecimento da pessoa suspeita. A meu ver, na escala de valor da prova, o Auto de Reconhecimento de Pessoa precede o Retrato Falado. Aquele identifica de forma direta o autor do delito; este, indiretamente, dar o suporte e pistas para tal identificação. Em suma, o Retrato Falado é usado comumente para extrair da memória da vítima ou testemunha o maior número de imagens registradas por sua percepção durante um evento criminoso, no caso, com o autor em lugar incerto e não sabido, cujo desenho as torna presente e visíveis, enquanto o Auto de Reconhecimento de Pessoa materializa a identificação da autoria, com o suspeito presente.

Deixe seu comentário!

Informe seu nome
Informe seu email