O dia em que morri – Jair Queiroz

Devido a um equívoco na interpretação de uma mensagem num grupo de amigos, eu morri! Sim, morri, pelo […]


O dia em que morri – Jair Queiroz

Devido a um equívoco na interpretação de uma mensagem num grupo de amigos, eu morri! Sim, morri, pelo menos para aqueles que entenderam mal a mensagem e espalharam a notícia de que eu havia “passado dessa para a melhor”, ou “esticado os cambitos”, como dizia um amigo.
Foi estranha a sensação de receber a ligação de um colega que ficou surpreso por estar ouvindo a minha voz: – Nossa! Então você está vivo!? Por uma fração de segundo fiquei em dúvida: – Como assim…eu…claro que sim…é… não sei! Mas enfim, o que está havendo?
Atônito ele disse que já tinha lastimado minha passagem, com nota de pesar e desejado que minha morte tivesse transcorrido em paz. Eu me emocionei com o carinho que ele demonstrou, mas ao mesmo tempo fiquei chocado por saber que tudo ao meu redor continuava igual, independente da minha morte que até então era real para muitos.
Fiquei reflexivo, pois se acaso eu tivesse mesmo partido, parece que no dia seguinte já não faria mais falta no mundo, exceto para meus filhos, os menores.
Entendi que é assim que ocorre, quer dizer, somos importantes, mas só enquanto estivermos vibrando, pois ao passarmos para o além, embora haja quem chore e que por algum tempo ainda possa se lembrar de nós, na real nossa energia e sinergia não voltarão a pulsar no mundo; não retribuiremos à empatia de quem nos tem apreço e nunca mais reverberaremos a simpatia de quem nos desejou a vida eterna.
Ao pó retornaremos! Deve ser um vazio imenso estar morto; um silêncio de dar calafrios e um tédio “de morte”!!
Bem, mas logo o equívoco foi desfeito e nós rimos; rimos e brincamos sobre o chiste do qual ele havia tornado parte e eu ao desligar o celular fui tomado por uma sensação de triunfo muito grande. Afinal eu estava vivo – e ainda estou – e posso descrever o ocorrido com um toque de humor.
Escrevi sobre o caso em enviei para grupos de amigos do wpp, mas não tive retorno. A dúvida voltou: – Afinal eles sempre respondem, mesmo que seja com emojis! Será que de fato enviei a mensagem ou não passou de um desejo de permanecer grudado à matéria? Pode ser que eu tenha dessomado mesmo, mas estou renitente em me desapegar e ir para o além.
Iniciei uma retrospectiva do meu dia, passo a passo. O almoço foi eu que fiz, mas todos comeram sem reclamar; à tarde, ontem, fui andar de bike e um carro tirou “uma fina”, mas foi só um susto e eu prossegui; o boleto do condomínio veio com 40% de acréscimo devido a reforma do prédio. O coração disparou, mas eu chorei e o síndico dividiu em 4 parcelas. Dá para segurar mais essa barra! Enfim, que motivo eu teria para partir dessa para a melh… quer dizer – dessa para a pior?
De repente ouço barulho de chave na fechadura da porta. Minha esposa entrou, colocou os produtos do mercado sobre a mesa, aproximou gentil e sorridente como sempre e me beijou na face. Estávamos sozinhos em casa e aproveitamos a tarde. Aí sim, quase morri, mas no fim repousei feliz e satisfeito!
E VIVA A VIDA!!!
Jair Queiroz é policial aposentado e psicólogo


1 Comentário

  1. Elias Soares disse:

    Bom dia meu nobre amigo , rapaz por um estante , também pensei que vc já havia partido tb.
    Mas que bom que VC ainda está aqui para continuar escrevendo suas histórias.
    Saúde longa amigo…

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